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Uma lacuna na formação do enxadrista: a capacidade de visualização mental

José Eduardo Maia

Este é um artigo voltado para os Alexanos iniciantes ou os da classe C e B. Mas os mais fortes estão convidados a colaborarem com sugestões, discordâncias, etc. É o primeiro de uma série, a convite do Presidente Blanco, sem uma ordenação temática, mas uma miscelânea de assuntos sob minha perspectiva.

O tema esta semana é sobre a questão da capacidade do enxadrista de visualizar mentalmente (ou seja, sem olhar o tabuleiro) posições e lances, dominando toda geometria que envolve o jogo.

Esse tema começou a me chamar a atenção quando em um ping no Posto 6 em Copacabana eu vi um classe A da FEXERJ exibir orgulhosamente um “tijolão” de mais de 500 páginas contendo combinações em todos os seus temas. Pensei: “legal, é uma forma de treino”. Contudo, tive a feliz ideia de perguntar a ele: “ei, olha para mim. Qual a cor da casa f5?” o cara não respondeu! Perguntei sobre cores de outras casas, casas que formavam uma diagonal,etc, NECA!

O caso do meu querido amigo classe A é que ele teve uma lacuna logo em seu aprendizado do jogo. Assim como eu tive e muitos outros.

É aconselhável a qualquer iniciante ou estudante aprender sobre o tabuleiro de xadrez e toda a sua geometria (em caso de crianças muito pequenas isso pode ser uma exceção devido à cognição pouco abstrata) concomitantemente aos movimentos das peças. O melhor método que já vi até hoje nesse sentido é o que consta no livro Comprehensive Chess Course, vol. I,II de Lev Alburt e Roman Peltz . Esses livros são extraordinários e recomendo fortemente a todo classe C com severas dificuldades de visualização que reaprenda com eles o elementar de xadrez, fazendo mentalmente os exercícios propostos como um aquecimento cerebral prévio a outros treinos/estudos.

Então, todo estudante deve aprender bem sobre o tabuleiro de xadrez de forma que seja capaz de “vê-lo” em sua mente. Deve ser capaz de responder rapidamente, sem olhar o tabuleiro, a questões como: como um cavalo vai de c4 a f6, passando por d3? Quais as casas onde um bispo em h4 pode atacar uma dama em d6? Quais as diagonais que fazem interseção com a casa c5? Qual a casa que faz a interseção da diagonal b1-h7 com a quarta fila? E por aí vai.

Ao fim de um rigoroso treinamento de visualização do tabuleiro, o estudante deverá estar apto a reproduzir mentalmente partidas somente olhando os lances. Também deverá estar apto a depois de olhar um diagrama de combinação por 2-3 minutos, resolvê-lo mentalmente.

O tipo de treinamento citado deveria ser empregado seriamente por jogadores de todas as forças (adequando os treinos para cada gradação de força, claro).

Evolução no xadrez é passo a passo. Não adianta fazer um treino de cálculo (em livro do Dvoretsky, por exemplo) se houver lacuna em visualização do tabuleiro. Treinar a capacidade de ver o tabuleiro em sua mente é de grande importância para seu futuro desenvolvimento.

Embora o pensamento posicional seja extremamente importante (na verdade, uma condição prévia ao cálculo, afinal como você terá condições de avaliar uma posição depois de “n” lances?), análises (cálculo) precisas é tão ou mais importante. Na prática, em uma partida, o enxadrista lida com muitas situações onde o concreto cálculo de variantes é necessário. Nestas situações, onde você necessita calcular muitas variantes , a capacidade de mentalizar as posições resultantes é de primeira importância e isto pode ser melhorado muito com o treino de visualização de tabuleiro. E as bem conhecidas capivaradas e lamentações (“eu tava ganho!” “eu tava melhor!”) irão drasticamente diminuir.

Bom, vamos aplicar agora um teste básico para os alexanos iniciantes, C e B (os mais fortes podem fazer também!). São dois pequenos testes que deverão ser feitos sem olhar um tabuleiro. Anotem suas soluções e depois sim chequem os resultados no tabuleiro.

Teste A

1-      Qual a cor da casa f6?

2-      Qual a cor da casa b4?

3-      Como um bispo em f5 pode ir para d6?

4-      Diga todas as rotas mais curtas que um cavalo pode ir de e4 para h8.

Se você acertou 100% (sem muita demora) pode fazer o próximo teste básico. Se não acertou, vá correndo reaprender o jogo nos dois volumes do Comprehensive Chess Course e exercite também nesta página da internet

Teste B

1-      Brancas: Rh1, De4, Cf8, b2, e5, g2 e h2; Pretas: Rh8, De3, Bc1, a4, b4, g7, h6. Brancas jogam. Qual lance devem fazer?

2-      Posição inicial. Depois de 1-e4-c6; 2-d4-d5; 3-Cc3-dxe4; 4-Cxe4-Cd7; 5-De2-Cgf6. Qual o melhor lance para as brancas agora?

3-      Brancas: Rg1, Da3, Td1, Bg5, Ce2, a2, b3, c4, f2, g2, h2. Pretas: Rg8, Dg6, Tf8, Bb7, Ce5, a7, b6, c7, f7, g7, h7. Brancas jogam. O que devem jogar?

4-      Brancas: Rg1, Bg2, Ce4. Pretas: Re3, Db2. Pretas jogam. Podem ganhar? Como?

Se você não acertou 100% do teste B, está num nível intermediário de visualização do tabuleiro e deve começar um treinamento no volume 2 do Comprehensive Chess Course, exercícios por mim enviados ou nessa página da internet.

Se respondeu a 100% corretamente o teste B, você tem uma boa capacidade de visualização e deve continuar melhorando essa habilidade com exercícios específicos, tais como:

  • Reproduzir partidas mentalmente de forma progressiva, de mais curtas a mais longas, chegando a um momento crítico onde uma questão lhe será colocada. Exemplo: 1-c4-e5; 2-g3-Cf6; 3-Bg2-Be7; 4-e3-d6; 5-Cc3-0-0; 6-d3-Be6. Qual o melhor lance das brancas? Ou veja mais nesta página da internet (Hard) ou no meu blog.
  • Pegue um livro com exercícios táticos. Olhe um diagrama por alguns segundos/minutos até mentalizá-lo. Então, resolva o exercício sem olhar mais para o diagrama.

Agora um desafio: em quantas rotas diferentes um cavalo vai de d6 a f4 no menor nº de lances?

Bom, fico por aqui nessa 1ª coluna. Dúvidas e críticas (por favor, muitas!), escrever para joseeduardomaia@terra.com.br

Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2013.